Um cenário opressor, trágico, próximo e sombrio. Essa é a ambientação pesada de Black Mirror. O criador da série, o roteirista britânico Charlie Brooker (foto acima), um dos diretores da produtora Zeppotron, da Endelmol (a empresa que criou o Big Brother), é um pessimista declarado sobre o futuro da tecnologia.  A série estreou em 2011, no canal britânico Channel 4 e está completa no Netflix, com as três temporadas.

A reflexão sobre o quanto da nossa vida está envolvida pela tecnologia é o grande mote de BM.  A ótima trama de Black Mirror consegue traçar uma linha tênue entre um conto de Twilight Zone e uma história de David Linch. Acrescente a esse estado de coisas, a internet, a inteligência artificial e os telefones celulares.

Por que você deve assistir Black Mirror

Porque Black Mirror mostra o lado mais sinistro do ser humano. Mostra o prazer mórbido que carregamos ao observarmos a desgraça alheia, essa atração quase irresistível de espiar entre os dedos o mal-estar dos outros, enquanto fingimos não querer ver. Mostra como a humanidade cria seus próprios monstros e não sabe como se livrar deles, depois. Mostra ainda como nós, os humanos, na esperança de tentarmos corrigir erros, acabamos cometendo outros ainda mais torpes e cruéis. Esta é certamente o maior acerto da série: expor verdades desconfortáveis.

Outro ponto interessante sobre a série é como seus elementos surreais nos dão uma impressão de distanciamento do cotidiano, em alguns momentos, porém, ao partir para uma análise mais profunda, há uma coerência enorme com o mundo em que vivemos.

Stephen King comentou em seu twitter sobre a série e a cobriu de elogios, a chamou de engraçada, e brilhante e a comparou a Twilight Zone. Em outubro, o Independent publicou em sua página na internet que Robert Downey Jr. teria comprado os direitos para adaptar o episódio “The Entire History of you” em filme, porém, três anos depois nada foi realizado, segundo o jornal.

Sobre alguns episódios

Manter o nível em todos os capítulos não é algo fácil, um ou outro pecam em alguns pontos, e mesmo assim, são muito bons. A direção de fotografia, o elenco diverso e a produção, merecem menção.

O primeiro episódio da primeira temporada, Hino nacional é um dos melhores de todos, se não o melhor, pelo seu surrealismo chocante. Essa predileção pode ser discutida, obviamente.

Conforme o espectador avança na série, notará que tudo é possível; uma plateia sedenta por sadismo disfarçado de justiça, a destruição do talento genuíno frente aos poderes do Estado e do capitalismo, a vida controlada por rankings de popularidade e a privacidade zero, são algumas das situações expostas pelo espelho negro.

Cena de "Queda Livre". Nem tão distante da realidade. Foto/Reprodução The Indepedent

Cena de “Queda Livre”. Nem tão distante da realidade. Foto/Reprodução The Indepedent

No episódio Queda Livre, que abre a terceira temporada, cada pessoa recebe uma nota em uma rede social e toda a sua vida é regida por ela. Que levante a mão quem não ficou pensativo sobre esse tema. E se essa moda pega? Na mesma temporada, o belo e longo episódio San Junipero  cujo tema é o amor e a morte, destoa um pouco do tom pessimista da série, atua como uma janela ensolarada em meio a situações tão caóticas.

Os episódios são totalmente independentes entre si, tanto o elenco quanto os diretores mudam, e o espectador não perde sequência alguma. Pode-se escolher qualquer um, no melhor estilo roleta russa. Reserve um tempo, não perca nada desta série, que vai certamente inquietar e incomodar quem assiste. E isto é um elogio.